Reconciliação: consigo mesmo, com a família, com Deus

“Reconcilia-te depressa enquanto estás a caminho…” – Jesus, Mateus 4:25

A reconciliação[1] é uma necessidade humana geral. Todos temos algo a reconciliar e integrar em nós mesmos e nas nossas relações. E, acima de tudo, todos necessitamos reconectar-nos à fonte sagrada do amor e do bem, o Criador, em nós e em toda parte.

A parábola do filho pródigo é uma síntese do movimento de desconexão criatura-criador, da insuficiência decorrente da rebeldia e da reconexão com o pai.

Tudo se inicia na rebeldia, que se manifesta na exigência. O filho, certamente cansado de viver sob cuidados do pai, exige a parte que lhe cabe na herança a fim de usufruir da vida. Há, desde aí, a consciência do filho de que sem o pai ele não é nada, pois em vez de sair de casa para conquistar o que deseja e construir a sua vida, ele requisita parte do que considera o seu direito diante das propriedades e posses de seu genitor. No entanto, essa consciência está adoecida e ele deseja excluir o pai de sua vida.

O filho dessa história – assim como tantos na vida – confundiu herança com direito. É certo que os estatutos legais do mundo defendem o direito dos filhos legítimos ou assumidos seguirem na posse daquilo que os pais conquistaram. No entanto, no plano da alma, herança não é direito, é presente. É algo que os pais dão ao filho se e como desejarem, na sequência dos cuidados e da atenção que dispensaram desde o berço. Na herança há uma mensagem subliminar dos pais para os filhos: “Eis aqui o fruto do meu esforço e sacrifício para que sua vida seja um pouquinho mais leve. E porque ela é um pouco mais leve é seu dever ir um pouco mais longe”.

Quando o filho recebe a herança como presente, a recebe com respeito e reverência, e não se permite abusar do que lhe foi dado. Por outro lado, aquele que exige se crê superior e no direito de usar aquilo que outros conquistaram e não respeita o que recebe.

Aquele filho, iludido pela imaturidade ou pela rebeldia, “desperdiçou todos os bens, vivendo dissolutamente”. Ele acreditava que aplacaria sua angústia interior e vazio existencial vivendo múltiplos prazeres. No entanto, os prazeres são como fogo fátuo, que rapidamente queimam e logo se apagam, deixando no lugar um vazio ainda maior que o anterior. O espírito Dias da Cruz certa feita ensinou-nos que “o prazer é como o horizonte: tão logo nos aproximamos dele outro se forma mais longínquo e nunca pode ser alcançado, pois o objetivo do horizonte é ser horizonte.” Então, acrescenta o benfeitor: “O objetivo do desejo é ser desejo, não é ser realidade. O desejo é combustível, não é propósito. A natureza do desejo é a natureza do vazio humano e este só pode ser preenchido por dentro. O que faz falta ao homem não é aquilo que ele não tem e sim o que ele retém. Clama por amor e por ser amado sendo fonte de amor em sua própria estrutura. Conectar-se a esta realidade e despertar a fonte em si é a necessidade fundamental do homem

O filho pródigo não estava consciente deste verdade. Semeou livremente, invigilante e colheu naturalmente o que plantou, brotou e produziu, conforme a semente. E por desperdiçar os recursos, viu-se só e pobre, sem condições de sustentar a si mesmo e de manter-se íntegro na vida. Foi, então, apascentar porcos e comer de sua comida.

Eis a representação da desconexão criatura-Criador e seus efeitos. Quando o espírito, em sua rebeldia, aparta-se do cuidado do Pai, pela não aceitação de sua paternidade, desejando bastar-se a si mesmo, desconecta-se da fonte de abundância e infinitude que é o próprio Deus e vive a miséria decorrente do egocentrismo. Desconectado tem que bastar a si mesmo e se fecha no egoísmo que o isola da sociedade e da família. E encontra a falência pessoal.

No entanto, a lei divina é ordenada e ordenadora, produz a ordem e conduz (ou reconduz) à ordem, em qualquer circunstância. Quando o espírito se aparta do Pai e tenta burlar a lei, ele vive, naturalmente, o efeito da falta, da ausência do alimento afetivo e espiritual que lhe nutre o coração, a mente e a inspiração, encontrando a miséria moral e espiritual. A dor lentamente sensibiliza, transforma, modifica, qual o buril redentor que visita a pedra, lapidando-a e dando o toque. Então, inicia-se o regresso.

Ao se lembrar da casa do Pai, lembra do Seu amor. Recorda a dignidade dos assalariados, os que trabalhavam em jornadas, e da abundância em que viviam enquanto cumpriam seus deveres. Então, ele se arrepende.

O arrependimento é o primeiro passo para o início da jornada de regresso, momento em que o ser acolhe em si a responsabilidade pela vida e percebe que construiu a realidade infeliz que recolhe dela e que de si depende, igualmente, refazer o caminho de retorno à casa do Pai. Neste momento ele se reconcilia consigo mesmo. Acolhe sua sombra, seus vazios e desacertos, com ternura, aceitação e responsabilidade. Não perde tempo na autopunição desnecessária, olha para o que necessita fazer para reparar seu caminho. Estabelece-se, então, o movimento religioso na alma, de religação. Ele ainda se encontra apartado, no entanto, já vislumbra a necessidade e o movimento necessários para sair da miséria moral e espiritual e retornar à abundância e à alegria de viver.

Então, ele se levanta e recobra a dignidade da postura ereta na vida, a conduta reta que o levará de volta ao Pai. Vislumbra o caminho por onde desceu, desgastando a herança exigida, e percebe o lixo deixado ao longo do caminho. Vê ao alto a casa paterna e o Pai que lhe olha com dignidade e respeito, e isso o move, enchendo-o de força. Mas, é imperativo que suba o caminho anteriormente desrespeitado, dignificando-o. Caminha, agora, recolhendo o lixo deixado no solo, registro de sua imprevidência e rebeldia, e assume as consequências de seus atos e decisões. O olhar, no entanto, está no Pai, na promessa, no porvir de abundância.

É interessante observar que essa postura digna do filho representa o movimento de saúde se estabelecendo na alma. Ele abandona a exigência para seguir na responsabilização pelos seus atos.

Quando o filho dá os passos iniciais necessários, ainda longe do destino, a misericórdia divina o visita. Do Pai, só misericórdia e compaixão. Nenhuma crítica, julgamento moral ou punição. Somente um amor abundante que ultrapassa os limites da compreensão humana, habituada a projetar em Deus as suas características humanas falíveis e imperfeitas.

O amor do Pai pelas suas criaturas é incondicional. Ensina-nos o benfeitor espiritual Dias da Cruz que “quando Deus olha para a criatura não vê uma obra imperfeita, mas uma obra perfeita em execução. E sabe que obra Sua não falha. Então, ele ama no broto imaturo o fruto maduro do amanhã. E ama cada fase e cada etapa de seu desenvolvimento, sem nenhuma exigência.”[2]

E o filho, regenerado e redimido, se atira, então, nos braços do pai, envergonhado e feliz de estar de volta. É dia de festa porque “aquele que estava morto reviveu e o que estava perdido se encontrou”.

Essa é a destinação de todo ser humano. Cada ser pode eleger o roteiro, mas não pode escolher o destino, que já está pré-fixado pelo Criador: a integração plena no Seu amor.

A rebeldia é experiência passageira que ainda que permaneça ativa por muitas encarnações, cede sempre espaço para a humildade e a obediência à medida que o espírito se dá conta de que entregar-se a Deus não é limitar-se nem negar-se, mas expandir-se e a

[1] Para estudo aprofundado do tema ver a obra de mesmo título deste capítulo, “Reconciliação: consigo mesmo, com a família e com Deus”, do autor, publicada pela Ame Editora.

[2] Andrei Moreira e espírito Dias da Cruz, Pílulas de confiança, p.101.

Andrei Moreira

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